O presidente americano Donald Trump assinou nesta quarta-feira uma ordem executiva implementando uma tarifa adicional de 40% sobre o Brasil, somando-se aos 10% anunciados em abril e elevando o total para 50%. A informação foi divulgada por volta das 15h em um comunicado da Casa Branca.
Em vez de entrar em vigor no dia 1º de agosto, como havia sido anunciado por Trump, o decreto adia por sete dias a partir de ontem a implementação.
Um destaque é que o decreto estabelece uma longa lista de quase 700 exceções — entre os 4 mil itens que o Brasil exporta para os EUA — a essa tarifa adicional de 40%, entre elas aviões da Embraer, peças aeronáuticas (como turbinas, pneus e motores), suco de laranja, castanhas, vários insumos de madeira, celulose, ferro-gusa, minério de ferro, equipamentos elétricos e petróleo. Todas as exportações brasileiras já embarcadas e que chegarem aos EUA até 5 de outubro também ficarão isentas da sobretaxa.
Aço e alumínio estão fora da medida porque já haviam sido taxados em 50% com origem de todos os países. A Embraer, que vende cerca de 45% de seus aviões para os EUA, é uma das principais beneficiadas da lista de exceções. A empresa tem atividades nos EUA, onde emprega 2 mil pessoas.
Por outro lado, café, cacau, carne e frutas, alguns dos principais itens da pauta de exportação brasileira, não estão na lista de exceções e devem ser tarifados. Dessa forma, o tarifaço de Trump, apesar do impacto menor que o esperado devido às exceções, tem ainda potencial de afetar substancialmente as exportações brasileiras.
Justificativas de Trump no decreto
O decreto recorre à ideia de proteção a interesses americanos em caráter emergencial, justificando a medida com a afirmação de que o objetivo é “lidar com políticas, práticas e ações recentes do Governo do Brasil que constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”, diz trecho do documento.
Cita diretamente o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, no Supremo Tribunal Federal (STF), por tentativa de golpe e também menciona o ministro relator, Alexandre de Moraes como alvo de sanções americanas. O texto ainda diz ser contra interesses americanos a ação criminal contra o blogueiro Paulo Figueiredo, neto de João Figueiredo, ex-presidente da República no regime militar, que reside nos EUA, por declarações dele na internet “feitas em solo norte-americano”.
O Brasil é o país com a maior tarifa a ser aplicada — 50% — porque, segundo Trump, o STF estaria fazendo uma “caça às bruxas” ao julgar o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Na carta que enviou ao Brasil, Trump exige o fim do julgamento. O governo brasileiro tem reiterado que o Judiciário no Brasil é um poder independente.
Setores isentos comemoram
Com a inclusão de sucos de laranja na lista de quase 700 exceções na ordem executiva assinada por Trump, a CitrusBr, que representa o setor exportador do suco da fruta, afirmou em nota que recebe o anúncio com “alívio e responsabilidade”. “A CitrusBR reforça o seu compromisso com o mercado no fornecimento de suco de laranja de alta qualidade como acontece há mais de 60 anos”, diz o texto.
A tarifa não se aplica a diversos tipos de carvão, gás natural, petróleo e derivados, como querosene, óleos lubrificantes, parafina, coque de petróleo, betume, misturas betuminosas e até energia elétrica.
Artigos que foram exportados para o Brasil para reparo, modificação ou processamento e que retornam aos Estados Unidos sob certas condições também estão isentos, com exceções específicas para o valor agregado, diz o documento.
A sobretaxa também não vale para produtos de uso pessoal levados por brasileiros na bagagem quando vão para os Estados Unidos.
Parte dos produtos do RN é beneficiada
Parte dos produtos exportados do Rio Grande do Norte para os Estados Unidos será beneficiada com a isenção.
De acordo com a Federação das Indústrias do Estado (Fiern), no 1º semestre deste ano, os cinco grupos de produtos mais exportados foram, nesta ordem: óleos de petróleo, peixes frescos ou refrigerados, produtos de origem animal, pedras de cantaria ou de construção e produtos de confeitaria sem cacau.
Segundo a lista divulgada pela Casa Branca, desses cinco, ficarão isentos: óleos de petróleo e pedras de cantaria ou de construção. Esses dois segmentos exportaram, de janeiro a junho deste ano, US$ 28,7 milhões – o que significa 42% de tudo o que foi exportado pelo Estado.
De acordo com a Fiern, as exportações de produtos do RN para os Estados Unidos mais que dobraram no primeiro semestre de 2025, em relação ao mesmo período do ano passado. Enquanto de janeiro a junho de 2024, o Estado exportou, no total, US$ 30,5 milhões, neste ano o valor subiu para US$ 67,1 milhões. O aumento foi exatamente de 120%.
Considerando o valor atual do câmbio (R$ 5,50), isso significa que as exportações do Rio Grande do Norte para os Estados Unidos alcançaram neste ano, nos seis primeiros meses, a marca de R$ 369 milhões. No ano passado, foram R$ 167 milhões, aproximadamente.
Enquanto as exportações subiram, as importações caíram 35%. Saíram de US$ 41,8 milhões (R$ 230 milhões) em 2024 para US$ 26,9 milhões (R$ 148 milhões) em 2025.
Plano para mitigar tarifaço de Trump está pronto e sendo refinado, diz Tesouro
O plano para mitigar os efeitos do tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil está pronto e sendo refinado pelo governo, afirmou nesta quarta-feira (30) o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron.
Segundo ele, o governo está atento aos efeitos causados pela medida tomada pelos Estados Unidos e pretende dar uma resposta racional por meio do pacote para permitir a estabilidade do cenário econômico. Ele afirmou que as ações devem incluir medidas de crédito.
Entre as medidas há a possibilidade de criar um fundo privado temporário para dar empréstimo a empresas ou setores afetados pelo tarifaço. O objetivo é exigir dos interessados a demonstração de que tiveram suas receitas afetadas negativamente pela imposição da sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros.
Mesmo dentro de setores afetados pelo tarifaço, como o siderúrgico, há empresas que são menos dependentes das relações comerciais com os americanos. Por isso, a definição do recorte será importante para garantir que a linha emergencial seja acessada por quem efetivamente sofreu impactos.




